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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

ATINJA ONDE DÓI por Ted Kackzynski



O propósito deste artigo

O propósito deste artigo é apontar um princípio muito simples do conflito humano, um princípio que os oponentes do sistema tecno-industrial parecem estar negligenciando. O princípio é o de que em qualquer forma de conflito, se você quer vencer, você deve atingir seu adversário aonde dói.

Eu tenho que explicar que quando eu falo sobre "atingir aonde dói" eu não estou necessariamente me referindo a golpes físicos ou a qualquer outra forma de violência física. Por exemplo, em um debate oral, "atingir aonde dói" significaria fazer argumentos do qual a posição do seu oponente é a mais vulnerável. Em uma eleição presidencial, "atingir aonde dói" significaria ganhar do seu oponente os estados que tiverem o maior número de votos. Mesmo assim, ao discutir este princípio eu irei utilizar a analogia de um combate físico, porque é vívido e claro.

Se uma pessoa te dá um murro, você não pode se defender atingindo de volta no punho dela, porque você não conseguirá ferir a pessoa dessa forma. Para você vencer a luta, você deve atingir a pessoa aonde dói. Isso significa que você deve passar por trás do punho e atingir as partes sensíveis e vulneráveis do corpo da pessoa.

Suponha que uma escavadeira pertencente a uma madeireira esteja destruindo a mata perto de sua casa e você quer parar com isso. É a lâmina da escavadeira que rasga a terra e derruba as árvores, mas seria uma perda de tempo pegar uma marreta e atingir a lâmina. Se você gastar um longo e duro dia marretando a lâmina, você pode até conseguir danificar a lâmina o suficiente para que ela fique inutilizável. Mas, em comparação com o resto da escavadeira, a lâmina é relativamente barata e fácil de substituir. A lâmina é apenas o "punho" em que a escavadeira atinge a terra. Para derrotar a máquina você deve passar por trás do "punho" e atacar as partes vitais da escavadeira. O motor, por exemplo, pode ser arruinado com muito pouco tempo e esforço por meios bem conhecidos por muitos radicais.

Neste ponto eu devo deixar claro que eu não estou recomendando que alguém deva danificar uma escavadeira (ao menos que seja propriedade sua). Nem qualquer outra coisa neste artigo deve ser interpretada como recomendando atividade ilegal de qualquer tipo. Eu sou um prisioneiro, e se eu fosse encorajar atividade ilegal esse artigo nem sairia da prisão. Eu uso a analogia da escavadeira somente porque é claro e vívido e será apreciado por radicais.

A tecnologia é o alvo

É amplamente reconhecido que "a variável básica que determina o processo histórico contemporâneo é o resultado do desenvolvimento tecnológico" (Celso Furtado). A tecnologia, acima de tudo, é responsável pela atual condição do mundo e irá controlar o seu desenvolvimento futuro. Portanto, a escavadeira que nós temos que destruir é a tecnologia moderna em si. Muitos radicais estão conscientes disso, e sabem então que suas tarefas são eliminar todo o sistema tecno-industrial. Mas infelizmente eles têm prestado pouca atenção para a necessidade de atingir o sistema aonde dói.

Destruir o McDonald's ou o Starbuck's é inútil. Não que eu me importe com o McDonald's ou o Starbuck's. Eu não me importo se alguém os destrói ou não. Mas isso não é uma atividade revolucionária. Mesmo se cada rede de fast-food no mundo fosse arrasada o sistema tecno-industrial sofreria danos mínimos como resultado, já que ele consegue sobreviver facilmente sem redes de fast-food. Quando você ataca o McDonald's ou o Starbuck's, você não está atingindo aonde dói.

Alguns meses atrás eu recebi uma carta de um jovem na Dinamarca que acreditava que o sistema tecno-industrial tinha que ser eliminado porque, em suas palavras, "O que acontecerá se continuarmos dessa forma?" Entretanto, aparentemente sua forma de atividade "revolucionária" era atacar fazendas de peles. Como um meio de enfraquecer o sistema tecno-industrial essa atividade é totalmente inútil. Mesmo se os libertadores de animais tivessem êxito em eliminar completamente a indústria de peles eles não causariam qualquer dano ao sistema, porque o sistema consegue se manter perfeitamente sem peles.
Eu concordo que manter animais selvagens em gaiolas é intolerável, e pôr um fim a tais práticas é uma causa nobre. Mas existem muitas outras causas nobres, como prevenir acidentes de trânsito, prover abrigo para os moradores de rua, reciclagem, ou ajudar pessoas velhas atravessar a rua. Mesmo assim ninguém é tolo o bastante para confundir essas atividades com atividades revolucionárias, ou imaginar que elas fazem algo para enfraquecer o sistema.

A indústria madeireira é um caso à parte

Como outro exemplo, ninguém em sã consciência acredita que qualquer coisa em relação à natureza selvagem conseguirá sobreviver por muito tempo se o sistema tecno-industrial continuar a existir. Muitos radicais ambientalistas concordam que esse é o caso e esperam que o sistema entre em colapso. Mas na prática tudo o que eles fazem é atacar a indústria madeireira.

Eu certamente não tenho objeção aos seus ataques à indústria madeireira. Na verdade, é um assunto que está próximo do meu coração e fico contente por qualquer sucesso que os radicais podem ter contra a indústria madeireira. Mais ainda, por razões que eu preciso explicar aqui, eu penso que a oposição à indústria madeireira deva ser um componente dos esforços para acabar com o sistema.

Mas, por ela mesma, atacar a indústria madeireira não é um modo eficiente de ir contra o sistema, porque mesmo que os radicais consigam parar todo o desmatamento em todo o mundo, isso não iria destruir o sistema. E não iria salvar permanentemente a natureza selvagem. Cedo ou tarde o clima político mudaria e o desmatamento recomeçaria. Mesmo que o desmatamento não recomeçasse, existiriam outras formas nas quais a natureza selvagem seria destruída, ou se não destruída ao menos domada e domesticada. Mineração, chuva ácida, mudanças climáticas e extinção de espécies destroem a natureza selvagem; a natureza selvagem é domada e domesticada por recreação, estudo científico, e gerenciamento de recursos, incluindo entre outras coisas, rastreamento eletrônico de animais, barragem de córregos para a criação de peixes, e plantio de árvores geneticamente modificadas.

A natureza selvagem só pode ser salva permanentemente eliminando o sistema tecno-industrial, e você não consegue eliminar o sistema atacando a indústria madeireira. O sistema sobreviveria facilmente à morte da indústria madeireira porque produtos de madeira, apesar de muito úteis ao sistema, podem se necessário, serem substituídos por outros materiais.
Consequentemente, quando você ataca a indústria madeireira, você não está atingindo o sistema aonde dói. A indústria madeireira é apenas o "punho" (ou um dos punhos) no qual o sistema destrói a natureza selvagem, e, como em uma luta de punhos, você não consegue vencer atingindo o punho. Você tem que passar por trás do punho e atingir os órgãos mais vitais e sensíveis do sistema. Por meios legais, é claro, como protestos pacíficos.

Porque o sistema é forte

O sistema tecno-industrial é excepcionalmente forte devido a sua chamada estrutura "democrática” e sua flexibilidade resultante. Devido ao fato de que sistemas ditatoriais tendem a ser rígidos, tensões sociais e resistências podem crescer ao ponto em que elas danificam e enfraquecem o sistema e podem levar à revolução. Mas em um sistema "democrático", quando a tensão social e a resistência crescem perigosamente, o sistema cede o suficiente, ele abre mão o suficiente, para baixar as tensões a um nível seguro.

Durante os anos de 1960 as pessoas começaram a se dar conta que a poluição ambiental era um problema sério, mais ainda porque a sujeira visível e cheirável no ar sobre nossas grandes cidades estavam começando a deixar as pessoas desconfortáveis. Protestos apareceram e uma Agência de Proteção Ambiental foi criada e outras medidas foram tomadas para aliviar o problema. É claro que todos sabemos que nossos problemas de poluição estão a um longo, longo caminho de serem resolvidos. Mas o suficiente foi feito para que as queixas do público abaixassem e a pressão no sistema fosse reduzida por muitos anos.

Portanto, atacar o sistema é como atacar um pedaço de borracha. Um golpe de martelo pode estilhaçar ferro fundido, porque ferro fundido é rígido e frágil. Mas você pode golpear um pedaço de borracha sem danificá-lo porque ele é flexível: Ele cede espaço diante de um protesto, só o suficiente para que o protesto perca sua força e impulso. E então o sistema cresce de volta.

Então, para atingir o sistema aonde dói, você deve selecionar os assuntos pelos quais o sistema não irá ceder, pelos quais ele irá lutar até o fim. O que você precisa não é um acordo com o sistema, mas uma luta de vida ou morte.

É inútil atacar o sistema em termos de seus próprios valores

É absolutamente essencial atacar o sistema não em termos de seus próprios valores tecnologicamente-orientados, mas em termos de valores que são inconsistentes com os valores do sistema. Enquanto você atacar o sistema em termos de seus próprios valores, você não atinge o sistema aonde dói, e você permite que o sistema reduza o protesto abrindo caminho, recuando.

Por exemplo, se você ataca a indústria madeireira primeiramente com base em que florestas são necessárias para preservar recursos naturais e oportunidades recreativas, então o sistema pode ceder para neutralizar o protesto sem comprometer seus próprios valores: recursos de água e recreação são totalmente consistentes com os valores do sistema, e se o sistema recua, se ele restringe o corte de árvores em nome de recursos hídricos e recreação, então ele apenas faz um recuo tático e não sofre uma derrota estratégica em seu código de valores.

Se você empurra questões vitimizadoras (como o racismo, sexismo, homofobia, ou pobreza) você não está desafiando os valores do sistema e você não está nem ao menos forçando o sistema a recuar ou ceder. Você está ajudando o sistema diretamente. Todos os proponentes mais sábios do sistema reconhecem que o racismo, sexismo, homofobia, e pobreza são prejudiciais ao sistema, e é por isso que o próprio sistema trabalha para combater estas e outras formas similares de vitimização.

"Estabelecimentos escravizantes" com seus baixos salários e condições de trabalho miseráveis, podem dar lucro para certas corporações, mas proponentes sábios do sistema sabem muito bem que o sistema como um todo funciona melhor quando trabalhadores são tratados decentemente. Ao questionar estabelecimentos escravizantes, você está ajudando o sistema, e não o enfraquecendo.

Muitos radicais caem na tentação de focarem-se em questões não essenciais como racismo, sexismo e estabelecimentos escravizantes porque é fácil. Eles escolhem um problema do qual o sistema pode firmar um acordo e o qual vão receber apoio de pessoas como Ralph Nader, Winona La Duke, as uniões trabalhistas, e todos os outros comunistas partidários. Talvez o sistema, sob pressão, irá recuar um pouco, os ativistas irão ver algum resultado visível de seus esforços, e eles terão a ilusão satisfatória de que conseguiram algo. Mas na verdade eles não conseguiram nada em relação a eliminar o sistema tecno-industrial.

A questão da globalização não é completamente irrelevante para o problema da tecnologia. O pacote de medidas políticas e econômicas denominado "globalização" promove o crescimento econômico e, consequentemente, o progresso tecnológico. Mesmo assim, a globalização é uma questão de importância mínima e não um alvo bem escolhido de revolucionários. O sistema pode ceder espaço na questão da globalização. Sem abandonar a globalização por completo, o sistema pode tomar medidas para mitigar as consequências econômicas e ambientais negativas da globalização para neutralizar os protestos. Por quase nada, o sistema poderia até mesmo arcar em desistir totalmente da globalização. O crescimento e progresso mesmo assim continuariam, apenas em um ritmo mais lento. E quando você luta contra a globalização você não está atacando os valores fundamentais do sistema. A oposição à globalização é motivada nos termos de assegurar salários decentes para trabalhadores e proteger o meio ambiente, ambos dos quais são completamente consistentes com os valores do sistema. O sistema, para sua própria sobrevivência, não pode deixar a degradação ambiental aumentar demais. Consequentemente, ao lutar contra a globalização você não atinge o sistema aonde realmente dói. Seus esforços podem promover a reforma, mas elas são inúteis no propósito de abolir o sistema tecno-industrial.

Radicais devem atacar o sistema em pontos decisivos

Para trabalhar efetivamente em direção à eliminação do sistema tecno-industrial, os revolucionários devem atacar o sistema em pontos dos quais o sistema não pode ceder. Eles devem atacar os órgãos vitais do sistema. É claro, quando eu uso a palavra "atacar", eu não estou me referindo a ataque físico, mas somente formas legais de protesto e resistência.

Alguns exemplos de órgãos vitais do sistema são:

A. A indústria de energia elétrica. O sistema é totalmente dependente de sua rede elétrica.
B. A indústria de comunicações. Sem comunicações rápidas, como por telefone, rádio, televisão, e-mail, e assim por diante, o sistema não sobreviveria.

C. A indústria de computação. Todos nós sabemos que sem os computadores o sistema iria prontamente entrar em colapso.

D. A indústria de propaganda. A indústria de propaganda inclui a indústria do entretenimento, o sistema educacional, o jornalismo, a publicidade, as relações públicas, além da política e da indústria de saúde. O sistema não funciona ao menos que as pessoas sejam suficientemente dóceis e conformistas e tenham atitudes que o sistema necessita que tenham. É função da indústria de propaganda ensinar as pessoas esse tipo de pensamento e comportamento.

E. A indústria de biotecnologia. O sistema ainda não está (até onde eu saiba) fisicamente dependente da biotecnologia avançada. No entanto, o sistema não pode deixar de lado a questão da biotecnologia, que é uma questão criticamente importante para o sistema, como eu irei argumentar logo.

Novamente: Quando você ataca esses órgãos vitais do sistema, é essencial não atacá-los em termos dos próprios valores do sistema, mas em termos de valores inconsistentes com aqueles do sistema. Por exemplo, se você ataca a indústria de energia elétrica com base em que ela polui o meio ambiente, o sistema pode neutralizar o protesto desenvolvendo métodos mais limpos de geração de eletricidade. Se o pior acontecesse, o sistema poderia até mesmo mudar totalmente para a energia eólica e solar. Isso pode ajudar bastante para reduzir danos ambientais, mas não ajudaria a pôr um fim ao sistema tecno-industrial. Nem iria representar uma derrota para os valores fundamentais do sistema. Para conseguir qualquer coisa contra o sistema você deve atacar toda a geração de energia elétrica como uma questão de princípio, com base em que a dependência em eletricidade faz as pessoas dependentes do sistema. Isso é um fundamento incompatível com os valores do sistema.

A biotecnologia pode ser o melhor alvo para ataque político

Provavelmente o alvo mais promissor para ataque político é a indústria da biotecnologia. Apesar do fato de que revoluções são geralmente conduzidas por minorias, é muito útil ter algum grau de apoio, simpatia, ou pelo menos consentimento da população geral. Se você concentrasse, por exemplo, seu ataque político na indústria de energia elétrica, seria extremamente difícil conseguir qualquer tipo de apoio além de uma minoria radical, porque a maioria das pessoas resistem a mudanças em seus estilos de vida, especialmente qualquer mudança que seja inconveniente para elas. Por essa razão, poucos estariam dispostos a abandonar a eletricidade.

Mas as pessoas ainda não se sentem dependentes da biotecnologia avançada como elas se sentem com a eletricidade. Eliminar a biotecnologia não irá mudar radicalmente suas vidas. Pelo contrário, seria possível mostrar às pessoas que o desenvolvimento contínuo da biotecnologia irá transformar seus modos de vida e acabar com valores humanos antigos. Portanto, ao desafiar a biotecnologia, os radicais devem conseguir mobilizar a seu próprio favor a resistência humana natural por mudanças.

E a biotecnologia é uma questão da qual o sistema não pode perder. É uma questão da qual o sistema terá que lutar até o fim, o que é exatamente o que precisamos. Mas - para repetir mais uma vez - é essencial atacar a biotecnologia não em termos dos próprios valores do sistema, mas em termos de valores inconsistentes com daqueles do sistema. Por exemplo, se você atacar a biotecnologia, primeiramente com base em que ela pode causar danos ao meio ambiente, ou que alimentos geneticamente modificados podem ser prejudicais à saúde, então o sistema pode e irá amortecer seu ataque cedendo ou recuando - por exemplo, introduzindo maior supervisão em pesquisas genéticas e mais testes e regulamentos rigorosos de plantações geneticamente modificadas. A ansiedade das pessoas irá então acalmar e o protesto irá enfraquecer.

Toda a biotecnologia deve ser atacada como uma questão de princípio

Então, ao invés de protestar contra uma ou outra consequência negativa da biotecnologia, você deve atacar toda a biotecnologia moderna como princípio, com base em por exemplo: (a) que é um insulto a todas as coisas vivas; (b) que ela põe muito poder nas mãos do sistema; (c) que ela irá transformar radicalmente valores humanos fundamentais que têm existido por milhares de anos; e fundamentos similares que são inconsistentes com os valores do sistema.

Em resposta a esse tipo de ataque o sistema terá que levantar e lutar. Ele não possui recursos para se proteger do seu ataque cedendo em qualquer nível que seja, porque a biotecnologia é muito central para todo o empreendimento do progresso tecnológico, e porque ao ceder, o sistema não estará fazendo apenas um recuo tático, mas estará levando uma grande derrota estratégica em seu código de valores. Esses valores estariam minados e a porta estaria aberta para ataques políticos que poderiam destruir as fundações do sistema.

É verdade que a Casa dos Representantes dos EUA recentemente votou para banir a clonagem de seres humanos, e pelo menos alguns congressistas até tinham os tipos de razões certas para isso. As razões que eu li estavam enquadradas em termos religiosos, mas seja o que for o que você pensa sobre os termos religiosos envolvidos, essas razões não eram razões tecnologicamente aceitáveis. E é isso o que importa.

Portanto, os votos dos congressistas sobre clonagem humana foi uma derrota genuína para o sistema. Mas ela foi apenas uma derrota muito, muito pequena, por causa da área estreita da proibição - apenas uma minúscula parte da biotecnologia foi afetada - e já que de qualquer forma para o futuro próximo a clonagem de seres humanos seria de pouco uso prático para o sistema. Mas a ação da Casa dos Representantes sugere que isso pode ser um ponto do qual o sistema é vulnerável, e que um ataque mais amplo em toda a biotecnologia pode causar um dano severo no sistema e em seus valores.

Os radicais ainda não estão atacando a biotecnologia efetivamente

Alguns radicais atacam a biotecnologia, tanto politicamente quanto fisicamente, mas até aonde eu saiba eles explicam sua oposição à biotecnologia em termos dos próprios valores do sistema. Ou seja, suas queixas principais são os riscos de danos ambientais e de ser prejudicial à saúde.

E eles não estão atingindo a indústria da biotecnologia aonde dói. Utilizando uma analogia de combate físico novamente, suponha que você tenha que se defender contra um polvo gigante. Você não poderia contra-atacar efetivamente golpeando as pontas de seus tentáculos. Você tem que atingir na cabeça. Do que eu li de suas atividades, os radicais que trabalham contra a biotecnologia ainda não fazem mais do que golpear as pontas dos tentáculos do polvo. Eles tentam persuadir fazendeiros comuns, individualmente, de não plantarem sementes geneticamente modificadas. Mas existem milhares de fazendas na América, e então persuadir fazendeiros individualmente é um modo extremamente ineficiente para combater a engenharia genética. Seria muito mais eficaz persuadir cientistas que atuam trabalhando em pesquisas biotecnológicas, ou executivos de empresas como a Monsanto, a saírem da indústria biotecnológica. Bons cientistas pesquisadores são pessoas que possuem talentos especiais e treinamento extensivo, e por isso eles são difíceis de substituir. O mesmo é verdade de altos executivos Corporativos. Persuadir somente um pouco dessas pessoas a saírem da biotecnologia causaria mais dano à indústria da biotecnologia do que persuadir mil fazendeiros a não plantarem sementes geneticamente modificadas.

Atinja aonde dói


Está aberta a argumentação se eu estou certo em pensar que a biotecnologia é a melhor questão a qual atacar o sistema politicamente. Mas está além da argumentação de que os radicais atualmente estão gastando muito de suas energias em questões que têm pouca ou nenhuma relevância para a sobrevivência do sistema tecnológico. E mesmo quando eles dirigem-se às questões certas, os radicais não atingem aonde dói. Então ao invés de correrem para a próxima cúpula mundial do comércio para perderem a calma e terem ataques de raiva sobre a globalização, os radicais deveriam gastar mais tempo pensando em como atingir o sistema onde realmente dói. Por meios legais, claro.

Theodore Kackzynski

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Original: Green Anarchy Magazine #8

sábado, 11 de janeiro de 2014

CONTRA A CIVILIZAÇÃO (COMUNICADO 23) por T.H.U.G.


O presente comunicado foi encontrado no local de um recente encontro secreto interrompido em Dover, Delaware, que houve para facilitar a coligação entre a Chevron, Pepsi-CO, Microsoft, o Sierra Club, o Northern New Jersey Federation of Anarcho-Stalinists (Federação Anarco-Estalinista do New Jersey do Norte), Michael Albert e o Institute for Social Ecology (Instituto pela Ecologia Social). Esta perturbação parece ser evidência de que as ideias e ações insurreccionárias anarquistas verdes e anarcoprimitivstas estão a espalhar-se!

Nos é frequentemente dito que os nossos sonhos são irrealistas, as nossas exigências impossíveis, que nós estamos basicamente loucos em sequer propor um tal conceito ridículo como o da “destruição da civilização”. Então, nós esperamos que esta breve declaração possa esclarecer um pouco acerca de porque é que nós não iremos nos contentar com nada menos do que com uma realidade completamente diferente daquela que nos é imposta hoje. Nós acreditamos que as infinitas possibilidades de experiência humana estendem-se tanto para a frente como para trás. Nós queremos o colapso da discordância entre estas duas realidades. Nós lutamos por uma realidade “futura primitiva”, uma que os nossos antepassados uma vez conheceram, e uma que nós podemos vir a conhecer: uma realidade pre/pós-tecnológica, pre/pós-industrial, pre/pós-colonial, pre/pós-capitalista, pre/pós-agrícola, e até pre/pós-cultural – onde nós fomos uma vez, e podemos ser outra vez, SELVAGENS!

Nós sentimos que é necessário levantar algumas questões fundamentais acerca de onde nós estamos agora, como nós chegámos a este ponto, para onde caminhamos, e talvez mais importante, de onde viemos. Isto não deve ser visto como uma prova irrefutável, as Repostas, ou prescrições para a libertação; mas em vez disso, como coisas para se considerar enquanto lutamos contra a dominação ou tentativa de criar outro mundo.

Nós acreditamos que a anarquia seja a última experiência libertadora e a nossa condição natural. Antes, e fora, da civilização (e as suas influências corruptíveis), os humanos eram, e são, na falta de melhores termos, anarquistas. Durante a maior parte da nossa história nós vivemos em grupos de pequeno-porte que tomavam decisões face-a-face, sem a mediação de governo, representação, ou até mesmo da moralidade de uma coisa abstracta chamada cultura. Nós nos comunicávamos, percebíamos, e vivíamos numa forma não mediada, instintiva e direta. Nós sabíamos o que comer, o que nos curava, e como sobreviver. Nós fazíamos parte do mundo a nossa volta. Não existia qualquer separação artificial entre o indivíduo, o grupo, e o resto da vida.

Numa escala mais vasta da história humana, não à muito tempo (alguns dizem 10, 000 a 20, 000 anos atrás), por razões que nós podemos apenas especular (mas nunca realmente saber), um desvio começou a ocorrer em alguns grupos de humanos. Estes humanos começaram a confiar menos na terra enquanto uma “doadora de vida”, e começaram a criar uma distinção entre elas próprias e a terra. Esta separação é a fundação da civilização. Não é na realidade algo físico, apesar de a civilização ter algumas manifestações físicas muito reais; é mais uma orientação, uma mentalidade, um paradigma. É baseada no controle e domínio da terra e dos seus habitantes.

O principal mecanismo de controle da civilização é a domesticação. É o controle, o adestramento, a criação e modificação da vida para benefício humano (normalmente para aqueles que estão no poder ou aqueles que lutam por poder). O processo de domesticação começou a desviar os humanos para longe do modo de vida nômade, em direção a uma existência mais sedentária e estabelecida, que criou pontos de poder (tomando uma dinâmica muito diferente do mais temporal e orgânico solo territorial), mais tarde a ser chamado propriedade. A domesticação cria uma relação totalitária com as plantas e os animais, e eventualmente, outros humanos. Esta mentalidade vê outras formas de vida, incluindo outros humanos, como separadas do domesticador, e é a racionalização para a subjugação das mulheres, crianças, e para a escravatura. A domesticação é uma força colonizadora na vida não-domesticada, que nos trouxe a experiência patológica moderna do máximo controle de toda a vida, incluindo as suas estruturas genéticas.

Um grande passo no processo civilizacional é o movimento em direção a uma sociedade agrária. A agricultura cria um panorama domesticado, um desvio do conceito de “ a Terra providenciará” para “o que é que nós produziremos da Terra”. O domesticador começa a trabalhar contra a natureza e os seus ciclos, e a destruir aqueles que ainda vivem com ela e a compreendem. Nós podemos ver os princípios da patriarquia aqui. Nós vemos os princípios não apenas da concentração da terra, mas também dos seus frutos. Esta noção de posse da terra e dos excedentes cria dinâmicas de poder nunca antes experienciadas, incluindo hierarquias institucionalizadas e guerra organizada. Nós nos deslocamos por um insustentável e desastroso caminho.

Durante os seguintes milhares de anos esta doença progrediu, com a sua mentalidade colonizadora e imperialista eventualmente consumindo a maior parte do planeta com, é claro, a ajuda dos propagandistas religiosos, que tentam assegurar as “massas” e aos “selvagens” que isto é bom e certo. Para benefício do colonizador, as pessoas são colocadas em oposição a outras pessoas. Quando a palavra do colonizador não é suficiente, a espada nunca está longe com a sua colisão genocída. Enquanto as distinções de classe se tornam mais solidificadas, restam apenas aqueles que têm, e aqueles que não têm. Os que tiram e os que dão. Os governantes e os governados. As muralhas são estabelecidas. Isto é como nos é dito que sempre foi; mas a maioria das pessoas de alguma forma sabe que isto não está certo, e sempre houve aqueles que lutaram contra. 

A guerra às mulheres, a guerra aos pobres, a guerra aos indígenas e as pessoas com base na terra, e a guerra ao mundo selvagem estão todas interligadas. Aos olhos da civilização, todos eles são vistos como mercadorias – coisas para serem reclamadas, extraídas, e manipuladas pelo poder e controle. Todos são vistos como recursos; e quando eles não têm mais uso para a estrutura de poder, eles são descartados para os lixões da sociedade. A ideologia da patriarquia é a de controle sobre a auto-determinação e sustentabilidade, da razão sobre o instinto e a anarquia, e da ordem sobre a liberdade e o selvagem. A patriarquia é uma imposição de morte, em vez de uma celebração da vida. Estas são as motivações da patriarquia e da civilização; e durante milhares de anos eles têm moldado a experiência humana em todos os níveis, desde o institucional ao pessoal, enquanto eles devoram a vida.

O processo de civilização tornou-se mais refinado e eficiente a medida em que o tempo passou. O capitalismo tornou-se o seu modo de operação, o medidor da extensão da dominação e a medida daquilo que é ainda necessário para ser conquistado. O planeta inteiro foi mapeado e terras foram cercadas. O estado-nação eventualmente tornou-se o agrupamento social proposto e servia para estabelecer os valores e objetivos de vastos números de pessoas, é claro, para benefício daqueles no controle. A propaganda de estado, e por esta altura, a enfraquecida igreja, começaram a substituir parte (mas certamente não toda) da força bruta com a benevolência superficial e conceitos tais como cidadania e democracia. Enquanto a alvorada da modernidade se aproximava, as coisas estavam a tornar-se realmente doentias.

Ao longo do desenvolvimento da civilização, a tecnologia desempenhou sempre um papel cada vez mais abrangente. Na realidade, o progresso da civilização esteve sempre diretamente ligado ao, e determinado pelo, desenvolvimento de cada vez mais complexas, eficientes e inovadas tecnologias. É difícil dizer se é a civilização que impulsiona a tecnologia ou vice-versa. A tecnologia, tal como a civilização, pode ser vista mais como um processo ou um sistema complexo do que uma forma física. Ela envolve inerentemente divisão do trabalho, extração de recursos e exploração pelo poder (por aqueles que detêm a tecnologia). O cenário com, e resultante da tecnologia é sempre uma realidade alienada, mediada e pesadamente carregada. Não, a tecnologia não é neutral. Os valores e objetivos daqueles que produzem e controlam a tecnologia estão sempre incluídos nela. Diferente de ferramentas simples, a tecnologia está ligada a um processo maior que é infeccioso e é propelido para a frente pelo seu próprio ímpeto. Este sistema tecnológico avança sempre e precisa estar sempre inventando novas formas de suportar, alimentar, manter e vender a si próprio. Uma parte chave da estrutura tecno-capitalista-moderna é o industrialismo; o sistema mecanizado de produção construído sobre o poder centralizado e da exploração das pessoas e da natureza. O industrialismo não pode existir sem genocídio, ecocídio, e imperialismo. Para se manter, a coerção, expulsão de terras, trabalho forçado, destruição cultural, assimilação, devastação ecológica, e a troca global são aceitas e vistas como necessárias. A estandardização da vida pelo industrialismo objectifica-a e torna-a mercadoria, vendo toda a vida como um recurso em potencial. A tecnologia e o industrialismo abriram a porta para a última forma de domesticação da vida – o último estágio de civilização - a era da neo-vida. 

Então agora nós estamos na pós-moderna, neo-liberal, bio-tec, cyber-realidade, com um futuro apocalíptico e uma nova ordem mundial. Iss poderia ser muito pior? Ou foi sempre assim tão mau? Nós estamos quase completamente domesticados, exceto durante alguns breves momentos (tumultos, rastejando através da escuridão para destruir maquinaria ou as infra-estruturas da civilização, conectando-nos a outras espécies, nadando nu em um rio de uma montanha, comendo comida selvagem, fazendo amor, -...adicione os seus próprios favoritos) quando nós temos um vislumbre do que seria nos tornarmos selvagens. A sua “aldeia global” é mais como um parque de diversões global ou um zoo global, e não é uma questão de boicotá-la porque nós estamos todos nela e ela está em todos nós. E nós não podemos apenas nos soltarmos das nossas gaiolas (ainda que estejamos impotentes se não começarmos por aí), mas nós temos que arrebentar com todo o maldito lugar, devorarmos os guardas do zoo e todos aqueles que o gerem e se beneficiam dele, nos ligarmos aos nossos instintos, e nos tornarmos selvagens outra vez! Nós não podemos reformar a civilização, torná-la mais verde, ou torná-la mais justa. Ela é podre até a raiz. Nós não precisamos de mais ideologia, moralidade, fundamentalismo, ou melhor organização para nos salvarmos. Nós precisamos salvar a nós próprios. Nós precisamos viver de acordo com os nossos próprios desejos. Nós precisamos nos ligarmos com nós mesmos, aqueles com que nos preocupamos, e o resto da vida. Nós temos que quebrar, e destruir esta realidade.

Nós precisamos de Ação


Resumindo, a civilização é a guerra à vida. Nós estamos lutando pelas nossas vidas, e nós declaramos guerra à civilização!


T.H.U.G. (Tree Huggin’ Urban Guerrillas)     


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Fonte: Green Anarchy Magazine - Back to Basics
Tradução: Coletivo Erva Daninha